Fitoterápicos

Curare

Curare tem sido utilizado por muitos séculos nas florestas tropicais da América do Sul como um veneno extremamente forte, e utilizado em flechas. O nome provém de palavras indígenas woorari, woorali, urari, que significa veneno. O pesquisador Walter Raleigh e diversos outros exploradores da América do Sul registram o uso de curare entre os índios, que teria sido registrada inicialmente pelo geógrafo Alexander von Humboldt em 1807. Na verdade curare é uma designação genérica de muitas preparações, que incluem muitos elementos, mas mais frequentemente o veneno mortal encontrado nas folhas da Strychnos toxifera ou S. guianensis e da Menispermaceae, especialmente a Chondrodendron tomentosum ou Sciadotenia toxifera. O método usual de preparação era o de combinar folhas jovens de Strychnos e de menisperms com outros fragmentos de folhas e mesmo veneno de cobra ou de formigas. Esta mistura era fervida em água por cerca de dois dias e então evaporada para tornar-se uma pasta escura e espessa com um gosto amargo.

 

A potência do veneno seria testada por exemplo, contando o número de saltos que um sapo daria depois de ser flechado. Certas tribos mantinham verdadeiro monopólio sobre a produção de curare, que representava uma fonte de riqueza. Flechas eram confeccionadas com curare e arremessadas com zarabatanas feitas de bambus ocos. A morte de pássaros se dava em dois minutos, pequenos mamíferos em dez minutos. Curare era muito caro para ser utilizado em guerras.

A morte por curare é causada por asfixia, uma vez que os músculos esqueléticos ficam relaxados e então paralisados. Contudo o veneno, somente funciona no sangue, o envenenamento de animais não causava efeitos nocivos, caso fosse ingerido (oralmente). Seus vapores não eram venenosos, embora alguns nativos acreditassem que o fossem. Em 1811, Benjamin Brodie notou que durante o envenenamento de curare o coração continuava a bater, mesmo quando a respiração cessava, o que significava que a função cardíaca não era bloqueada pelo curare. O horror do envenenamento por curare é que a vítima permanece consciente do que está acontecendo, podendo sentir progressivamente a paralisia sem nada poder fazer. Se respiração artificial for realizada a vítima se recupera sem lesões.

Entre os muitos alcalóides presentes no curare, a mais comum são a curarina e a tubocurarina, sendo a última isolada em 1897, obtida em forma cristalina a partir de 1935 e comercializada com os nomes de Tubarine, Metubine Iodine, Tubadil, Mecostrin, Atracurium (produzido pela Wellcome) e Vecuronium (produzido pela Organon). O curare contudo, começaria a ser utilizado como um anestésico apenas em 1943, quatro anos depois que seu ingrediente ativo, o d-tubocurarine foi isolado. A Wellcome, Abbot e Eli Lilly detém patentes de relaxantes musculares baseados no curare. Estas drogas são empregadas como como relaxantes musculares de músculos esqueléticos durante cirurgias para controlar convulsões.

O curare paralisa os músculos voluntários (todos os músculos são voluntários, como os do braço, pernas e da boca ou involuntários que funcionam sem controle consciente entre os quais o coração). Havia séculos se sabia que os indígenas da América do sul envenenavam a ponta de suas flechas de caça com o suco de diversas plantas venenosas da floresta tropical. A vantagem era que atingido em qualquer parte do corpo, o animal ficava paralisado pelos efeitos do veneno. A notícia dessa notável substância chegou á Europa demasiadamente rápido. Em 1516 uma geração depois de Colombo ter descoberto o Novo Mundo, Pedro Mártir de Anghera descreveu os efeitos do curare que viu em ação. Mas se passaram 170 anos até que G. Maggravius cunhasse o termo curare. Passaram-se muitos anos mais até alguém pensar em usar o curare para outros fins. O que retardou o aproveitamento do curare como relaxante muscular durante a anestesia foi o fato de antes de 1935 não ser possível encontrar curare clinicamente puro. Em 1942 porém a substância começou a ser usada em grande escala. Ela relaxa os músculos do paciente, facilitando bastante o trabalho do cirurgião (sobretudo no abdome), já que sem ela os músculos se travam. Permite ainda que o anestesista controle a respiração do paciente. Em 1948 cerca de 8 mil pacientes já haviam recebido curare. Este número teria sido maior, se houvesse suficiente curare disponível. Para satisfazer a demanda, a versão sintética foi finalmente produzida em 1949.

Deyler Meira em livro de 1968, descreve a história do uso clínico do curare em anestesia no Brasil: “O preparo de substâncias cicatrizantes suficientemente puras, padronizadas e estabilizadas, capazes de serem usadas com fins terapêuticos cabe indiscutivelmente neste país ao Dr. Oswaldo Vital Brazil e colaboradores, que partindo de uma planta bastante encontradiça em nosso meio, o chondrodendron platyphyllum, chegaram a um composto químico definido: o cloridrato do dimetilleter detilbebeerina, cuja solução 3 por 1000 deram o nome de kondrocurare. Com este produto realizaram experiências em animais, nos quais faziam a contenção para os mais diversos fins. Também iniciaram o seu emprego clínico em pacientes submetidos a convulsoterapia. Entretanto o uso clínico em anestesia de curare no Brasil, foi iniciado na segunda cadeira de clínica cirúrgica da Faculdade Nacional de Medicina, Universidade do Brasil, serviço do prof. Ugo Pinheiro Guimarães onde o Dr. Antônio Patury e Souza no dia 18 de maio de 1945 realizou uma anestesia pelo ciclopropano para uma apendicectomia na qual usou curare com finalidade específica de obter relaxamento muscular, em planos superficiais de anestesia. Tal emprego foi baseado nos estudos de Griffith e Johnson e nas observações pessoais do prof. Ugo Pinheiro que havia presenciado o emprego desta substância em uma de suas viagens aos Estados Unidos, onde conseguiu certa quantidade do produto.

Como dispuseram de apenas quatro frascos de Intocostrin (Squibb) que era extrato purificado de chondrodentron tomentosum, foram obrigados a usá-los de maneira parcimoniosa pela quase impossibilidade de obter tal produto no Brasil. Foram reunidos os dez primeiros casos, que deram motivo à publicação do primeiro trabalho feito, em nosso país, sobre o uso do curare em anestesia. Foi publicado em 1946 sob o título: “O curare como coadjuvante da anestesia por inalação”, após ter sido apresentado anteriormente ao Congresso Brasileiro de cirurgiões. Foi tal a repercussão deste trabalho, na época que seus autores Hugo Pinheiro Guimarães e Antônio Patury e Souza receberam no Colégio Brasileiro de Cirurgiões, o prêmio Raul Leite, constando de medalha de ouro, por haver sido julgado o melhor trabalho do ano, no setor anestesiologia. Logo a seguir o Dr. Antônio Patury e Souza publicava na revista Médica Municipal do Distrito Federal, sobre o mesmo assunto, já apresentando desta feita, uma experiência maior.

Apesar de uma estatística ainda restrita sobre uso do curare pois apenas o Dr. Patury o estava empregando, as discussões sobre o assunto eram as mais acirradas. Parecia aos menos avisados ser temerário usar “veneno de índio” para conseguir relaxamento muscular, quando isto poderia ser obtido através do aumento da dosagem de anestésicos e anestesias em plano de fundo. Provou, entretanto, a experiência futura que não estavam certos os que, na época, assim pensavam. Novas séries de observações foram realizadas e após alguns meses de trabalho era apresentado o primeiro resultado das cinquenta observações iniciais no IV Congresso Interamericano e IV Congresso brasileiro e americano do cirurgia em setembro de 1947 sob título: “O kondrocurare na anestesia por inalação”.

Assim havia sido lançado o primeiro trabalho sobre um curare nacional, em anestesiologia. Logo começaram a surgir outros trabalhos nacionais sobre o assunto. Em 1947 José Lima Drummond, após estagiar com o Dr. Patury no Rio de Janeiro, usa pela primeira vez, em Belo Horizonte, o curare em anestesia. Rucker e Forgnoli no Paraná; Araújo e Menandro de Faria, na Bahia; Affonso Zugliani, na Guanabara, continuaram a divulgação de suas observações pessoais sobre o emprego do curare em anestesiologia. Em 1948 Algodoal e Caputo apresentaram em separado, trabalhos sobre o tema. Na Guanabara, Leo Cabral de Menezes publicou sobre o curare em neurocirurgia. Na revista Argentina de anestesia e analgesia, Patury publicava: “La anestesia intravenosa com la mezcla tiomembutalcurare”. Em 1949 William Macksud transporta o uso do curare a Campo Grande, Mato Grosso, onde o divulga. Chastinet estuda a ação do curare sobre o eletroencefalograma. Padulo em São Paulo publica sobre o uso do curare e suas vantagens com intubação traqueal. Em 1950 Langui estuda o uso do curare nas reações transfusionais. L. Soares apresenta trabalho sobre cicatrizantes sintéticos e Erbini estuda o papel do curare na etiologia da atelectesia pulmonar.

Em 1952, o Brasil, na pessoa do dr. Gil Soares Bairão foi convidado a ser relator do tema oficial do III Congresso argentino de anestesia, “relaxantes musculares” foi o título do trabalho apresentado, no qual o dr. Bairão faz um relato completo e detalhado das substâncias cicatrizantes em anestesiologia, apresentando uma bibliografia com 283 citações. Nessa época o uso do curare em anestesiologia já estava consagrado. A quantidade de substâncias cicatrizantes, relaxantes musculares, usadas em medicina, quer sob a forma de curares naturais, quer de semissintéticos, se avoluma cada vez mais. O emprego de substâncias cicatrizantes em anestesia havia superado a fase experimental e entrava de maneira definitiva para o arsenal anestesiológico. Tal foi a sua importância, seu uso generalizou-se de tal ordem, que hoje (1968) passados 25 anos de seu emprego pela primeira vez em anestesia, no mundo, e 23 anos do seu emprego pela primeira vez em anestesia no Brasil, não existe um só anestesista que não o utilize em sua rotina diária. Foi de tal monta a modificação de conceitos sobre vários problemas médicos, com a introdução dos cicatrizantes que, em 1957, a Unesco organizou com sede no Rio de Janeiro um simpósio internacional sobre o curare e as substâncias cicatrizantes, onde foram revistos problemas de botânica, química, fisiologia, farmacologia e aplicações clínicas destas substâncias.

Fonte: http://www.tropilab.com/curare.html

http://www.botgard.ucla.edu/html/botanytextbooks/economicbotany/Curare/

http://www.mobot.org/MOBOT/research/library/kohler/1758_040.jpg

http://jangadabrasil.com.br/julho35/pn35070c.htm

acesso em janeiro de 2002

http://www.amazonlink.org/biopirataria/biopirataria_casos.htm

acesso em março de 2003

As dez maiores decobertas da Medicina, Gerald Friedland, Cia das Letras, 2000, página 165

Contribuição à história da anestesia no Brasil, Deyler Goulart Meira, Guanabara, 1968